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  • Homero Ferreira

RAIOS E TROVÕES! O que fazer durante uma tempestade com raios na montanha?

Atualizado: Out 5


Foto: Juarez B. Carvalho


O Brasil é o país dos raios!

Certamente todos já devem ter ouvido a frase que abre o texto. Com o início da primavera o risco de tempestades elétricas aumenta em algumas regiões do país. Devido a localização do nosso território, que se estende por uma grande área de zona tropical e uma parte menor na zona subtropical, temos vastas áreas propícias a ocorrência desses fenômenos.

E agora, com a chegada da temporada de raios, o que fazer quando somos pegos de surpresa (ou nem tanto) por uma tempestade com descargas elétricas no meio da montanha?


O último relatório do Elat (Grupo de Eletricidade Atmosférica), órgão vinculado ao INPE, apresenta dados interessantes e que merecem atenção durante o planejamento de atividades outdoor. Vamos analisar os números abaixo:

- cerca de 78 milhões de raios ocorrem no Brasil todos os anos

- os estados com maiores incidências de acidentes causados por raios são SP, MG e PA

- nos últimos 20 anos, mais de 2,2 mil pessoas morreram no Brasil por incidência de raios

- 26% das mortes ocorreram na área rural; 9% próximo à água; 9% debaixo de árvores; 7% em áreas descampadas, que são as áreas que mais nos interessam pensando em montanhismo ou atividades outdoor em geral.

O RISCO DE ACIDENTES COM RAIOS DURANTE ATIVIDADES OUTDOOR


Antes de mais nada, é importante entender de forma geral como se formam as condições para ocorrências de raios.

Um dos fenômenos que mais representa riscos em ambientes de montanha são as tempestades associadas as formações de nuvens Cumulonimbus, também denominadas de Cb. Explicar como as tempestades se formam não é o foco aqui, mas basicamente, no interior do Cb ocorre uma separação entre as cargas positivas e negativas (íons), que estão presentes na atmosfera. A carga negativa se acumula na parte inferior do Cb, enquanto nos materiais presentes no solo se concentram cargas positivas. Quando essa diferença entre cargas é suficientemente grande, originam as descargas elétricas que podem formar o que chamamos de “raios”, que é visualizado na forma de luz a qual denominamos “relâmpago”. Acompanhando esses, podemos ouvir o som emitido após a gigantesca energia liberada, que chamamos no Brasil de “trovão”. Normalmente as descargas elétricas ocorrem no início da passagem da tempestade e ao final, o que possibilita na maioria dos casos, buscar abrigo antes de ser atingido.

Esse fenômeno com grande quantidade de energia, uma das mais imponentes e impressionantes obras da natureza, é responsável por temperaturas que podem chegar a 30000ºC e liberar tensões de um milhão de volts. Pensando em todas as informações, alguns riscos que estão relacionados a raios são:

- ser atingido diretamente e sofrer queimaduras de diferentes graus, lesões internas, falhas o sistema nervoso central, perda de sentidos, paralisias, pcr e morte;

- mesmo não sendo atingido diretamente pela descarga elétrica, pode ser que a onda expansiva provocada pela explosão cause desiquilíbrios e quedas de pessoas e objetos (atenção a escalada);

- casos de estresse e perda de sentidos que comprometa o andamento da atividade.


COMO SE PREVENIR E MINIMIZAR OS RISCOS DE ACIDENTES COM RAIOS


- Como em todo trekking ou atividade de montanhismo, o planejamento prévio e acompanhamento das condições climáticas é fundamental. Para isso, vale pesquisar sobre as características climáticas do local, quais meses com maior incidência de chuvas e tempestades, possíveis rotas de evacuação e apoio, e principalmente, acompanhar os boletins climatológicos, previsões do tempo e ponderar sobre os riscos de seguir ou não com a atividade. Hoje com a internet não há desculpa para não buscar essas informações, que podem ser conferidas em site como CPTEC Inpe, Climatempo, Windy, mountain-forecast, freemeteo e vários outros. Deixarei links abaixo.


- Existem algumas orientações sobre como identificar a proximidade dos raios comparando o tempo do relâmpago e do trovão vindo dele, e levando em conta a velocidade de propagação do som (adotaremos aqui o valor de 333 m/s, sabendo que a velocidade de propagação do som varia conforme a temperatura). Com isso é possível calcular aproximadamente a distância entre a tempestade e o local que estamos. Por exemplo, se vemos um relâmpago e contamos 9 segundos até a chegada do trovão, temos: 333 x 9 = 2997m. Esses quase 3 km de distância já podem ser considerados próximo tanto se levarmos em conta a regra 30-30 ou 15-15, que se referem ao tempo de mínimo de segurança, contados em segundos, que devemos ter de uma tempestade.


- É importante entender que o raio sempre busca o caminho de menor resistência entre a nuvem e o solo. Pensando nisso, objetos isolados como torres, árvores, rochas, ou formações como topos de morro, platôs, cumes e arestas rochosas são lugares que atraem maior quantidade e favorecem a incidência de raios, que pode cair sim mais de uma vez no mesmo lugar (não vale tentar se proteger naquela árvore destroçada por algum raio no passado). Todos esses pontos, por mais atraentes e seguros que possam parecer devem ser evitados. Áreas úmidas, rios, lagos e praias também são potenciais em risco.


- Se possível, buscar abrigo antes da chegada da tempestade em locais como edificações cobertas, áreas mais baixas ou mesmo um bosque ou mata densa (nesse caso, atenção a quedas de galhos e árvores). Atenção a possíveis cavernas ou concavidades, evitando ficar na porta ou entrada delas e servir de caminho direto entre o teto e o chão.


- Em casos de escalada, ou descida de trecho técnico em trekking ou via ferrata, é preferível ao ser alcançado por uma tempestade com raios, se autoassegurar-se na rocha ao invés de continuar os rapeis, e se possível apenas com a corda e sem conexões metálicas.


- Se estiver no meio das descargas, é importante se afastar de objetos como bastões de caminhada, barraca, equipamentos de escalada. Abaixar-se e ficar em posição de “coque” para ter menor superfície de contato com o solo, e ficar sobre as botas, mochila ou isolante térmico pode ajudar a diminuir o risco de ser atingido (não há comprovações). Se estiverem em grupo, é importante se manter afastado, a pelo menos 15 metros de distância e mantendo a comunicação verbal entre todos, para dar amparo aos que demonstram sinal de estresse e também identificar possíveis vítimas dos raios.

Estudos para compreender os fenômenos climáticos demandam tempo e dedicação que não cabem em um curto artigo como o aqui apresentado. Porém os apontamentos aqui feitos podem ser de grande importância quando pensamos em atividades de montanhismo com maior segurança. É importante lembrar que os riscos nas atividades em ambientes naturais nunca serão zero. Saber gerir esses riscos, planejar e executar sua atividade com segurança além de importante, é fundamental para garantir muitos anos pela frente para explorar e conhecer os recantos desse mundão.

Em caso de dúvidas ou sugestões, entrem em contato!

Algumas indicações de sites para previsão do tempo:

https://www.mountain-forecast.com/

https://freemeteo.com.br/

https://www.climatempo.com.br/

https://www.windy.com/

https://www.cptec.inpe.br/


Foto de Capa de: Juarez B. Carvalho (https://www.instagram.com/p/B6PErpKHewG/?utm_source=ig_web_copy_link)

Fontes:

CAVALCANTI, Iracema Fonseca de Albuquerque; FERREIRA, Nelson Jesus; DIAS, Maria Assunção Faus da Silva; SILVA, Maria Gertrudes Alvarez Justi da. Tempo e clima no Brasil. [S.l: s.n.], 2009.

FARIA, A.P. A Escalada Brasileira. Companhia da Escalada, 2017.

COLORADO, J. Montañismo y Trekking Manual Completo, Desnivel, 2010.

AYORA, A. Gestion del Riesgo em Montaña y em Actividades al Aire Libre. Desnivel, 2011.

SCHUBERT, P. Seguridad y Riesgo en Roca y Hielo. Volume III. Desnivel, 2009.

http://www.inpe.br/webelat/homepage/

http://www.inpe.br/webelat/homepage/menu/noticias/boletim.php?page=57

http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/12/cresce-o-numero-de-pessoas-que-sao-atingidas-por-raios-dentro-de-casa.html

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/05/brasil-e-um-dos-paises-onde-mais-se-morre-por-raios-aponta-inpe.html

https://www.uol.com.br/tilt/ultimas-noticias/redacao/2018/05/28/por-que-o-brasil-e-o-pais-em-que-mais-caem-raios-no-mundo.htm

https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2020/06/27/como-cientistas-detectaram-raio-de-extensao-recorde-no-brasil-com-709-km.htm

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